Deepfake em tempo real: sua operação identificaria essa fraude?

Deepfake em tempo real: sua operação identificaria essa fraude?

Elias Sousa

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Resumo

  • Um homem preso em Murcia, na Espanha, usou deepfake em tempo real e documentos falsificados para se passar por cidadãos reais em videochamadas de verificação de identidade.
  • O que revelou seu rosto verdadeiro foi um atraso de cerca de um segundo no próprio software que ele usava, não um controle da verificação.
  • O caso mostra que comparar um rosto com um documento na tela não basta quando os dois podem ser fabricados de forma coerente entre si.

Diante da webcam, o homem segurava um documento de identidade falsificado, com a foto alterada digitalmente. Enquanto isso, um software modificava seu rosto na tela em tempo real, deixando-o idêntico à foto do documento. Do outro lado, o sistema de segurança de uma empresa emissora de certificados de assinatura eletrônica conduzia a videoidentificação.

O caso foi divulgado pela Polícia Nacional da Espanha em 11 de agosto de 2026, que descreveu a técnica como pioneira. Segundo o comunicado, foram até 38 tentativas de obter certificados de forma fraudulenta, usando mais de 30 identidades de cidadãos reais, com o objetivo de conseguir assinaturas digitais autorizadas para aplicar golpes financeiros depois. A polícia afirma que ele conseguiu se passar por várias vítimas nas videoconferências, mas o comunicado não informa se, ou quantos, certificados chegaram a ser emitidos.

O que chama mais atenção nessa história não é a tecnologia utilizada pelo golpista, mas o fato de que foi necessária uma falha do lado do criminoso para que o golpe fosse descoberto.

Como o ataque funcionava

Deepfake em tempo real

O homem aparecia pessoalmente nos vídeos de verificação de identidade mostrando o documento falsificado, enquanto técnicas de deepfake modificavam seu rosto em tempo real para que ficasse idêntico à fotografia do documento. Não se tratava de um vídeo gravado reproduzido diante da câmera, e sim de uma transformação feita ao vivo, sessão a sessão, a cada identidade usada.

Documento falsificado com foto alterada

Os documentos de identidade exibidos eram falsificados, com fotografias alteradas digitalmente e aparentes elementos de segurança.

Iluminação para simular os elementos de segurança

Para dar aparência de autenticidade ao documento, ele usava focos domésticos com lâmpadas coloridas posicionadas estrategicamente. Ao movimentar o documento diante da webcam, recriava os brilhos e os hologramas que um documento verdadeiro exibe sob luz real.

Anonimização em larga escala

As conexões passavam por VPN. A investigação sobre e-mails e meios de pagamento identificou mais de 320 linhas telefônicas, associadas a 24 aparelhos diferentes, a maioria contratada com identidades de terceiros e adquirida em pontos de venda em Murcia.

A falha que expôs o golpista

Durante uma das seções de verificação, o programa de deepfake que modificava o rosto do homem sofreu um pequeno atraso de processamento. Por cerca de um segundo, a imagem da vítima saiu da tela e o rosto real do suspeito ficou visível para o sistema antifraude da empresa. Isso permitiu identificá-lo e, depois, prendê-lo.

Esse segundo é o ponto mais citado do caso, mas é também o menos útil para quem opera uma verificação de identidade. Uma operação não pode depender de a ferramenta do fraudador falhar. Se o software tivesse funcionado sem interrupção naquela sessão, a comparação entre rosto e documento teria mostrado exatamente o que ele pretendia mostrar.

O que de fato funcionou como controle está em outra parte do comunicado. As investigações começaram depois que foram detectadas múltiplas solicitações fraudulentas à empresa emissora: até 38 tentativas, sobre mais de 30 identidades. E a estrutura que sustentava essas tentativas, com centenas de linhas telefônicas e dezenas de aparelhos, apareceu na investigação sobre os dados de contato e pagamento.

Nenhuma chamada isolada revela isso. Cada sessão, vista individualmente, podia parecer uma verificação legítima. O padrão só aparece quando as solicitações são observadas em conjunto.

Quais camadas de segurança poderiam barrar esse ataque?

Cada elemento do ataque explora um ponto específico da verificação, e cada um pede um tipo diferente de controle.

Uma camada de segurança sozinha não resolve o problema. O golpista atacou as duas pontas da comparação entre rosto e documento ao mesmo tempo. Quando rosto e documento são falsos e coerentes entre si, a comparação confirma a fraude em vez de barrá-la.

Também não se trata de dizer que a verificação da empresa espanhola era mal desenhada. O comunicado não informa se a verificação era feita por pessoas, por um sistema de biometria facial ou pelos dois, nem que tecnologia a empresa usava. O ponto é o tipo de controle, não a execução de uma empresa específica

Empresas brasileiras também estão ameaçadas

Operações brasileiras de crédito, abertura de conta e formalização de contratos usam videochamada para confirmar identidade à distância. O ataque descrito no comunicado não depende de país nem de setor: depende de haver uma verificação que se apoia na comparação entre um rosto e um documento exibidos na tela.

A mesma inteligência artificial que tornou o ataque possível é a que permite detectá-lo dentro da chamada, analisando sinais que o olho humano não capta em tempo real.

Por onde começar

Algumas perguntas que uma operação pode fazer sobre o próprio processo de videoidentificação, cada uma ligada a um elemento do caso:

  • A verificação detecta imagem inserida por software no fluxo de vídeo, ou apenas compara o rosto com a foto do documento?
  • A autenticidade do documento é validada por algo além da leitura visual na tela?
  • Alguém analisa as solicitações em conjunto, cruzando dispositivo, rede e identidade, ou cada chamada é avaliada isoladamente?
  • O processo identifica quando a mesma pessoa aparece sob identidades diferentes?
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O caso de Murcia não mostra que a videoidentificação deixou de funcionar. Mostra que a comparação entre rosto e documento, sozinha, é insuficiente quando as duas pontas podem ser fabricadas.

As soluções de verificação de identidade por vídeo da Nuvidio são desenvolvidas justamente para esse tipo de tentativa. A prova de vida é construída para distinguir uma pessoa real, presente diante da câmera, de uma foto, de um vídeo reproduzido em tela ou de um rosto gerado por deepfake. E a verificação não se resume a um momento da chamada: a biometria facial e a análise de comportamento por inteligência artificial acompanham toda a interação, sinalizando inconsistências enquanto ela acontece.

Ao final, cada interação gera indicadores de risco e um registro auditável do que foi verificado, o que dá à operação base para decidir quais interações merecem revisão antes de qualquer aprovação. Para entender como isso se aplica à sua operação, fale com nossa equipe.

Perguntas frequentes

Deepfake consegue enganar uma videochamada de verificação de identidade?

Consegue, e esse caso é um exemplo documentado. Segundo a Polícia Nacional da Espanha, o golpista conseguiu se passar por várias vítimas em videoconferências de verificação, usando deepfake em tempo real e documentos falsificados. O risco é maior quando a verificação depende da comparação entre o rosto e a foto do documento, porque as duas pontas podem ser fabricadas para coincidir.

O que é ataque de injeção em verificação por vídeo?

É quando um vídeo sintético é inserido diretamente no fluxo da chamada por software, substituindo a imagem da câmera, sem que nada real passe diante dela. É diferente de mostrar uma foto ou uma tela para a câmera. Por isso, a detecção de injeção é um controle distinto da prova de vida tradicional. No caso espanhol, o comunicado não detalha por qual meio a imagem modificada chegava à videochamada.

Como se proteger contra esse tipo de ataque?

Combinando camadas que atacam pontos diferentes: prova de vida e detecção de injeção no fluxo de vídeo, validação do documento que não dependa só da leitura visual, sinais de dispositivo e de rede, e análise das solicitações em conjunto, e não apenas de cada chamada isolada. Nenhuma delas, sozinha, cobre todas as partes de um ataque como o descrito pela polícia espanhola.

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