Golpes financeiros digitais: como funcionam e como se proteger

Golpes financeiros digitais: como funcionam e como se proteger

Elias Sousa

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Golpes financeiros digitais no Brasil se tornaram uma das principais ameaças estruturais ao setor financeiro e os números deixam isso evidente.

As fraudes e golpes financeiros geraram um prejuízo de R$ 10,1 bilhões ao setor bancário brasileiro em 2024, alta de 17% em relação a 2023, quando as perdas somaram R$ 8,6 bilhões, segundo a Febraban.

O Relatório de Identidade e Fraude 2025 da Serasa Experian aponta que 51% dos brasileiros relataram ter sido vítimas de algum tipo de fraude digital em 2024.

E o ritmo de crescimento segue acelerando. O volume geral de tentativas de fraude cresceu 56% no primeiro semestre de 2025 em relação ao mesmo período de 2024, enquanto as fraudes bancárias cresceram 220% no primeiro semestre comparado ao segundo semestre de 2024.

Para as instituições financeiras, há um desafio a ser superado que envolve responsabilidade legal, custos operacionais, conformidade regulatória e capacidade de produzir evidência suficiente quando uma operação fraudulenta é questionada no judiciário.

O que são golpes financeiros digitais?

Golpes e fraudes financeiras são termos usados de forma intercambiável no dia a dia, mas têm distinções do ponto de vista jurídico e operacional.

Fraude financeira é o ato de obter vantagem por meio de falsidade, adulteração de documentos ou identidade falsa, sem que a vítima participe voluntariamente. A abertura de conta com documentos adulterados ou o uso de dados de outra pessoa para contratar crédito são exemplos de fraude.

Golpe financeiro envolve a manipulação da vítima para que ela mesma realize a ação: uma transferência, o fornecimento de uma senha, a instalação de um aplicativo malicioso. A vítima age, mas sob coerção, engano ou manipulação.

Essa distinção importa para as instituições financeiras porque as implicações de responsabilidade são diferentes. Em golpes com participação da vítima, a discussão jurídica se concentra na capacidade da instituição de detectar comportamentos atípicos e bloquear transações fora do padrão. Em fraudes por identidade, o foco está na qualidade do processo de verificação na entrada

Os principais golpes financeiros digitais no Brasil

Engenharia social e falsa central de atendimento

No golpe da falsa central, muito comum no Brasil, criminosos se passam por atendentes de instituições financeiras para convencer clientes a realizarem transferências, burlando proteções tradicionais como senhas, biometrias e confirmações.

O mecanismo é simples e eficaz: o criminoso liga para a vítima alegando ser do banco, informa que há uma transação suspeita na conta e orienta o cliente a tomar ações “de segurança” que, na prática, transferem o controle da conta para o golpista. A urgência criada pela narrativa elimina o tempo de reflexão.

Apenas em 2024, as tentativas de fraude digital somaram aproximadamente R$ 3 bilhões, sendo metade ligada a falsas centrais, o chamado vishing.

Phishing, smishing e links maliciosos

Phishing é o envio de comunicações fraudulentas que imitam empresas legítimas (bancos, operadoras, órgãos governamentais) para induzir a vítima a fornecer credenciais ou instalar malware. O smishing é a versão por SMS, e o vishing por voz.

Malwares modernos não se limitam a roubar credenciais, eles automatizam pagamentos, executam transferências em massa e se camuflam como atividade legítima, usando scripts capazes de reproduzir cliques, movimentos de mouse e até digitação de senhas. O usuário não percebe que o dispositivo está comprometido porque a aparência da operação é normal.

Fraude de identidade e abertura de contas laranja

A fraude de identidade consiste em usar dados de outra pessoa, obtidos por vazamento, compra em mercados ilegais ou engenharia social, para abrir contas, contratar crédito ou realizar operações financeiras. A vítima só descobre quando começa a receber cobranças ou quando seu nome aparece em cadastros de inadimplência.

Do lado das instituições, as contas abertas com identidades fraudadas frequentemente se tornam contas laranja usadas para movimentar recursos de outros golpes e dificultar o rastreamento. As quadrilhas usam as contas laranjas para sobrecarregar sistemas de rastreamento dos bancos e apagar a origem do dinheiro extraviado.

Golpes via Pix

A instantaneidade do Pix, que é um de seus maiores atributos, também o torna atraente para golpistas: a transação é irreversível e ocorre em segundos. Os golpes via Pix cresceram 43% em dois anos, causando prejuízos de R$ 2,7 bilhões.

Alguns golpes via Pix comuns incluem o QR code falso (substituição de um código legítimo por um fraudulento), o falso comprovante de pagamento e a solicitação de chave Pix em contextos de falsa urgência.

Clonagem e troca de cartões

A clonagem ou troca de cartões bancários é o golpe mais reportado pelos brasileiros, com 40% dos casos registrados. A troca física acontece em situações de atendimento presencial, quando o criminoso distrai a vítima (geralmente fingindo erro na maquininha) e substitui o cartão por um falso. A clonagem ocorre por meio de dispositivos instalados em terminais de pagamento ou caixas eletrônicos.

Golpes utilizando engenharia social são impulsionados pelo uso de IA

A maioria dos golpes financeiros bem-sucedidos não depende de falhas técnicas nos sistemas. Depende da manipulação das pessoas que os operam.

O presidente da Febraban destacou que o sistema financeiro enfrenta “desafios inéditos”, como a escalada de golpes e fraudes digitais, levando à uma “uma explosão de crimes digitais”. Para reverter esse cenário, é preciso um esforço conjunto do setor para combater práticas cada vez mais sofisticadas utilizadas por criminosos, que nem sempre dependem de ataques às estruturas tecnológicas das instituições, mas ocorrem principalmente por meio de técnicas de engenharia social, nas quais as vítimas são induzidas a fornecer informações sigilosas.

Engenharia social é o conjunto de técnicas psicológicas usadas para manipular pessoas a tomarem ações que não tomariam com reflexão adequada. Os mecanismos mais eficazes exploram:

  • Urgência e medo: a sensação de que algo ruim acontecerá imediatamente se a vítima não agir. “Sua conta está sendo acessada agora, preciso que você transfira os valores para uma conta segura.”
  • Autoridade: a vítima acredita estar falando com uma figura legítima de poder, como um funcionário do banco, um policial, um auditor da Receita Federal.
  • Familiaridade: a criação de rapport antes do pedido final. Criminosos frequentemente pesquisam informações sobre a vítima nas redes sociais para personalizar a abordagem.
  • Prova social: a sugestão de que outras pessoas já realizaram a ação solicitada, tornando-a parecer normal.

Dados da Polícia Federal divulgados em 2026 apontam que 42,5% das fraudes financeiras no país já utilizam ferramentas de inteligência artificial, enquanto o uso de deepfakes cresceu 830% entre 2024 e 2025. A IA não substituiu a engenharia social, mas potencializou, tornando as representações falsas mais convincentes e difíceis de identificar.

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Fraude ao longo da jornada digital

Os golpes não ocorrem apenas em um ponto isolado da relação entre cliente e instituição. Eles podem acontecer em diferentes etapas da jornada digital, e cada etapa tem vulnerabilidades específicas.

  • No onboarding: a abertura de conta ou contratação de produto com identidade falsa ou documentos adulterados. É a porta de entrada para fraudes de identidade e para a criação de contas laranja. A qualidade do processo de KYC nessa etapa determina diretamente a exposição da instituição.
  • Na autenticação: o comprometimento de credenciais por phishing, malware ou vazamento de dados, permitindo que terceiros acessem a conta de um cliente legítimo.
  • Na formalização de contratos: a contestação de contratos com a alegação de que o signatário não reconhece a operação, seja porque foi de fato fraudulenta, seja porque a instituição não tem evidência suficiente para provar o contrário.
  • Nas transações: os golpes de engenharia social que induzem o próprio cliente a realizar transferências, e os malwares que as executam sem o conhecimento do usuário.
  • No pós-venda: fraudes em contestações de sinistros, pedidos de portabilidade fraudulentos e manipulação de processos de atendimento para obter vantagens indevidas.

Entender em qual ponto da jornada cada tipo de fraude opera é essencial para que as instituições financeiras estruturem defesas adequadas em cada etapa, em vez de concentrar controles apenas na entrada e deixar o restante exposto.

A responsabilidade legal das instituições financeiras no combate à fraudes e golpes digitais

O avanço dos golpes digitais chegou ao judiciário brasileiro e a jurisprudência recente tem implicações diretas para como as instituições financeiras precisam estruturar seus processos.

Em 2025, a 3ª Turma do STJ, por unanimidade, determinou que bancos e instituições de pagamento devem indenizar clientes por golpes de engenharia social quando houver falhas na proteção de dados ou na identificação de transações suspeitas. Em um dos casos julgados, o correntista sofreu R$ 143 mil em pagamentos indevidos em um único dia com 14 transações completamente fora do seu perfil de uso, e o banco nada fez.

Em 2026, a 3ª Turma do STJ condenou um banco a indenizar uma vítima de golpe imobiliário após reconhecer que a abertura de conta corrente com documentos falsos configura falha na prestação do serviço bancário. Nesse caso, golpistas se passaram pela verdadeira proprietária de dois imóveis, abriram uma conta corrente em seu nome com documentos falsificados e receberam o pagamento da vítima, que acreditava estar transferindo o valor para a vendedora legítima. O banco não participou da negociação, mas foi a conta aberta em suas dependências que viabilizou a conclusão do golpe.

No judiciário, a discussão não gira apenas em torno da fraude em si, mas principalmente sobre a capacidade das instituições financeiras de prevenir, detectar e bloquear movimentações suspeitas.

Isso significa que a responsabilidade das instituições não se limita ao momento do onboarding. Estende-se ao monitoramento contínuo do comportamento transacional e à capacidade de identificar padrões atípicos antes que o dano se consolide. Uma instituição que não documenta o seu processo de verificação e monitoramento tem dificuldade crescente de se defender em processos de contestação.

Como instituições financeiras podem proteger a si e a seus clientes de golpes financeiros digitais

A proteção contra golpes financeiros digitais não se resolve com uma ferramenta isolada. Exige uma abordagem em camadas que cobre diferentes pontos da jornada.

Verificação de identidade no onboarding

A combinação de biometria facial com liveness detection (detecção de vivacidade que distingue uma pessoa real de uma foto, vídeo ou deepfake) é hoje o padrão mínimo para operações de crédito e abertura de conta digital. A Resolução CMN nº 4.753 já estabelece esse requisito para operações acima de determinados valores.

Monitoramento comportamental de transações

A detecção de padrões atípicos em tempo real (volume de transações incomum, horários fora do padrão, valores inconsistentes com o perfil do cliente) é o mecanismo que a jurisprudência do STJ passou a exigir das instituições. Sem monitoramento, não há como detectar nem como provar que a tentativa de detecção existiu.

Registro auditável das interações

Quando uma operação é contestada, a instituição precisa demonstrar que o processo foi conduzido com rigor. Gravações com validade jurídica, trilhas de auditoria estruturadas e scores de risco documentados no momento da formalização são o que diferencia uma empresa que pode responder a uma contestação de uma que apenas afirma ter seguido o processo.

Treinamento e protocolos internos

Empresas mais maduras já discutem engenharia social em comitês executivos, simulam cenários de crise e envolvem áreas como jurídico, comunicação e recursos humanos na estratégia de resposta. O treinamento de operadores e gestores para reconhecer tentativas de engenharia social é um controle de baixo custo e alto impacto.

Análise de conformidade nas chamadas de atendimento

O monitoramento automatizado do conteúdo das interações de atendimento ,verificando adesão ao script, presença de frases obrigatórias e ausência de desvios regulatórios, reduz a exposição a contestações baseadas em má condução do atendimento.

Conclusão

Os golpes financeiros digitais no Brasil têm uma característica que os torna particularmente difíceis de combater: eles evoluem mais rápido do que os processos de proteção das instituições.

Fraudes envolvendo deepfakes e identidades sintéticas cresceram 126% no Brasil em 2025, segundo o Identity Fraud Report e o país responde por quase 39% de todos os casos detectados na América Latina. O fraudador moderno não precisa invadir sistemas, ele passa pelas verificações porque parece legítimo o suficiente para o sistema aceitar.

Para as instituições financeiras, a proteção eficaz é uma questão de arquitetura de processo: qual evidência cada etapa da jornada produz, como essa evidência é armazenada e como ela pode ser apresentada quando uma operação é questionada.

É nesse contexto que a Nuvidio atua: transformando interações por vídeo em evidência jurídica estruturada, com múltiplas camadas de verificação de identidade e score de risco documentado em cada operação. Não como substituto de uma estratégia de prevenção a fraudes, mas como a camada que garante que cada interação crítica possa ser auditada, contestada e defendida.

Conheça as soluções da Nuvidio:

  • VideoCall: Combine atendimento humano, validações de autenticidade, registros auditáveis e maior segurança jurídica em uma única solução.
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